(Além do mais) Rosenita

“[…]

Segue um diálogo que integra minhas mais estranhas experiências como ser humano. Data de uma noite perdida (no tempo, pois não me recordo muito bem a data, tampouco o ano em que ocorrera), mas memorável. Tive de passar por uma casa abandonada e lá conheci uma moça muito
atraente que estava disposta a conversar a noite inteira sem perder o fôlego. Lembro-me de algumas coisas que disséramos um ao outro. Pois bem… ei-las:

— Boa noite, Senhora. Desculpe-me, pois eu não sabia que poderia encontrar alguém por aqui, ainda mais a esta hora da noite…

— Boa noite, moço. Fique à vontade. Há um tempo estou por aqui. O lugar me diverte: é frio, seco, solitário, nunca aparece ninguém… Do que posso reclamar?

— Heh-heh… Perdoe-me, mas… Deus… como posso dizer… bem, bem… olha e eu é que achava que era o único estranho por aqui… Estranho mesmo, mais estranho que ficção… Olhe só…

— Nada debaixo do sol é estranho em demasia, ‘Sr. Estranho’ — se assim posso chamá-lo, moço… Tu és professor, correto?

— Nooosssaaaa! Como você sabe? Como percebeu?

— O que te posso adiantar é que tu falas como um. Veste-se como um. Apresenta-se como um. E emana uma energia de quem leva a vida a lecionar. E que tem uma certa queda para os estudos.

Tua área são as Letras, não é? Letras e a Filosofia. Ou não?

— Minha Nossa Senhora! Virgem Santíssima! Como é que tu podes saber taaanta coisa sobre mim, mocinha?

— E tua idade? Tu tens por cima uns 34 anos… Nada além disso!

— Novamente estou pasmado! Besta! Bobo! Acaso sabes mais algum detalhe sobre minha vida? Está tudo deveras estranho!

— Tens tempo? EStás mesmo a fim de conversar? Tens paciência?

— Tudo. Exceto muuuuito paciência. Ter paciência em boa quantidade nuuunca foi meu forte (risos).

— Pois que assim seja. Relaxe. Sente-se.

— Não. Sente-se a senhora primeiro.

— ‘A senhora primeiro’. Falas como um cavalheiro. Deve apreciar os tempos idos, ler Machado

de Assis ou literatura similar…

— Bem, bem… Passou perto — no caso do BRuxo de Cosme Velho. Aprecio, sim, os tempos idos — época em que não havia taaanto lixo no mundo…

— E esse ‘lixo’ que tu tanto dizes há muito tempo são as pessoas que tu não gostas, que tu não aceita, que te desagradam, não é?

— Palmas para a Senhora…

— Rosenita. Pode me chamar assim.

— Nooosssa! Que nome diferente… E tinha que trazer um nome tão comum antes, né?

— O ‘da Rosa’, não é mesmo? Refere-se a ele, não?

— Sim, sim… Falemos disso depois… Por ora quero mais é conversar contigo… Nem que for a noite inteira…

— Pois se não problema para tanto, conversemos, pois.

— Ok, ok… E qual é o meu nome?

— Wellington.

— Ah, não é possível! Como sabes meu nome? Devo ter lhe dito em algum momento de nossa conversa, não?

— Não que eu me lembre. É que sei tantas coisas sobre tanta coisa na vida… E agora sei mais, porque tenho alguém para conversar…

— Hummm… ‘Agora tenho alguém para conversar…’ É… Parece que eu também…

— (Rindo um pouco). Interessante momento este…

— Sim.

— Ok, Wellington. Quer falar do que?

— Meu Deus… Nem sei ao certo. Mas… Já leu H. P. Lovecraft? Allan Poe?

— Eu amava esse tipo de literatura. Lovecraft abusava um pouco dos adjetivos, isto é notório. Mas sabia conduzir seus contos. Poe parecia ser alguém muito doente — seja da mente, seja do corpo… Seja da alma…

— Caramba, Rosenita, você conhece mesmo os trabalhos dos caras, hein?

— Ah, eu lia muito quando mais nova… Mas não pergunte a minha idade… É complicado, tu haverás de saber…

— Como sabes que eu iria perguntar?

— O que posso te garantir é que, pelo teu semblante, pela forma como mudaste tua fisionomia, como teus olhos se mostraram, era bem essa ou qualquer pergunta similar que iria me fazer, Wellington…

— Olha, Rosenita, dá até medo de pensar algo perto de ti, sabe? Parece que tu tens uma bola de cristal, mulher…

— São coisas que levei um tempo para aprender… Mas… Valeu a pena esperar…

— Ok… Mas… Me diga uma coisinha:

— Se moro por aqui? Se moro aqui?

— Isso mesmo…

— Passo por aqui todas as noites.

— E…

— Bem, você está com um pouco de pressa, W. Caaalmaaa… Isso que você ia me perguntar não poderei te responder agora…

— Tá bom…

— Continuando, é mesmo um mistério para todos nós o porquê da Vida. E da morte. Se Deus existe ou não… Todo mundo passa a vida a perguntando, mais ou menos, sobre coisas desse tipo… Não posso ir muito além dessas minhas observações — eu poderia ser advertida por eles — os outros.

— Seria você um fantasma, então?

— W., você está entendendo errado as coisas… Fantasmas — isso mesmo, ‘imagens’, em grego, como você bem pensou — não existem. Espíritos sim… Acredite você ou não… Ainda duvida, né?

— Um pouco…

— Um momento, W.

E ela dirigiu-se até o portão da casa. Um portão velho, enferrujado, estranhamente mantido preso à mureta. Acompanhei-a. Até vê-la desaparecer gradativamente, já andando pela estrada. E, ao olhar para trás, quando eu gritei seu nome, sumira de uma só vez…”

Sérgio C. Gelassen, Rosenita

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: